Jornada de 40 horas pode elevar preços e informalidade, dizem economistas

A nova proposta de jornada de trabalho

O Senado aprovou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece a redução da jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas. Essa mudança ocorrerá em duas etapas: a primeira, que prevê uma jornada de 42 horas, entra em vigor 60 dias após a promulgação da PEC; a segunda etapa reduzirá ainda mais a carga horária, totalizando 40 horas, e ocorrerá 12 meses após a primeira fase. Além disso, a medida também elimina a escala de trabalho 6×1, garantindo aos trabalhadores dois dias de descanso.

No entanto, essa alteração suscita preocupações entre economistas, que avaliam que a implementação dessa redução da jornada de trabalho pode resultar em aumento de custos, pressão sobre preços e incremento da informalidade no mercado laboral.

Consequências econômicas da redução

Segundo especialistas, a redução da jornada de trabalho ocorre em um contexto de baixa produtividade no Brasil, o que pode agravar a situação econômica. Em análise anterior, o pesquisador Fernando de Holanda Barbosa Filho, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), destacou o risco de que essa mudança eleve os custos de produção sem um correspondente aumento na eficiência. Ele afirmou que, devido à menor produtividade, as empresas podem enfrentar maiores despesas que, em última instância, poderão ser repassadas aos consumidores na forma de preços mais altos.

redução da jornada de trabalho

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também expressou preocupação, prevendo que a redução da jornada poderá resultar em um aumento da folha de pagamento em até 7%, impactando diretamente os preços ao consumidor. A previsão é de que os custos com empregados formais possam chegar a R$ 267,2 bilhões por ano.

A análise de outros especialistas aponta que a medida deve causar uma reestruturação no mercado de trabalho, onde empresas poderão optar por reduzir a produção ou flexibilizar a contratação, aumentando a rotatividade e a informalidade.

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Aumento da informalidade e rotatividade

Com a implementação da redução da jornada de trabalho, uma das consequências mais imediatas poderá ser o aumento da rotatividade de funcionários. Economistas como Barbosa Filho alertam que, ao haver uma imposição legislativa uniforme, as empresas poderão trocar trabalhadores por mão de obra mais barata, o que poderia levar à diminuição do salário mensal, apesar do aumento no salário por hora.

Esse fenômeno pode resultar em um contexto paradoxal: embora se esperasse que os trabalhadores fossem beneficiados com a redução da jornada, na prática, a insegurança no emprego poderá afetar mais acentuadamente aqueles com menos qualificações, que estão mais propensos a serem dispensados ou substituídos por serviços informais.

Além disso, o aumento da informalidade é uma preocupação premente, uma vez que, com a dificuldade de contratação formal e a necessidade de ajustar a carga horária, pequenas empresas podem recorrer a vínculos informais para suprir a demanda, especialmente para turnos de final de semana. Estima-se que a informalidade já abarca cerca de 40% da força de trabalho brasileira.

Visão dos economistas sobre produtividade

Os economistas que analisam a proposta de redução da jornada de trabalho no Brasil concordam que a relação entre jornada e produtividade é geralmente mal interpretada. Nos países desenvolvidos, a diminuição da jornada de trabalho costuma ocorrer após ganhos efetivos de produtividade; portanto, a atual situação do Brasil, em que a produtividade é considerada estagnada, levanta sérias questões sobre a viabilidade da mudança.

André Portela, professor da FGV, acrescenta que uma redução abrupta da jornada, sem os devidos investimentos em eficiência e produtividade, pode não trazer os resultados esperados, podendo até mesmo piorar a situação do mercado de trabalho, afetando o crescimento econômico a longo prazo.